Corrida Descalço - Parte 5 - Instituto Fortius

Corrida Descalço – Parte 5

Marcus Lima

28 janeiro 2020

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Corrida Descalço – Parte 5

Na quinta parte da série sobre a corrida descalço feita pelo pessoal da Universidade de Harvard o foco recai sobre as diferenças biomecânicas entre os modos de atingir o solo, basicamente com a parte de trás e a parte da frente do pé.

Se quiser acessar a versão em pdf do artigo click no link:

 

Se não leu as partes anteriores confira:

 

 

Diferenças Biomecânicas entre os Modos de Atingir o Solo

Daniel E. Lieberman, Madhusudhan Venkadesan, Adam I. Daoud, William A. Werbel

Adaptação: Prof. Marcus Lima

 

Por que importam diferentes tipos de contato do pé com o solo?

Aqui colocaremos o foco na diferença entre o contato com o calcanhar e o antepé (ver o final da página para mais sobre o contato com o meio do pé, que com frequência é intermediário). No contato com o calcanhar, a colisão do calcanhar com o solo gera um significativo impacto transiente, uma grande força quase instantânea.

Esta força manda uma onda de choque através do corpo por meio do sistema esquelético. No contato com o antepé, a colisão do calcanhar com o solo gera uma força de impacto mínima, sem impacto transiente.

Portanto, simplificando, um corredor pode evitar uma grande força de impacto ao atingir o solo com o antepé de maneira apropriada.

As explicações abaixo ilustram como e porque uma grande colisão é gerada quando se aterrissa com o calcanhar e porque apenas uma pequena colisão é gerada quando se aterrissa com o antepé.

 

Contato com o Calcanhar e Forças de Reação do Solo

Impacto com o calcanhar na aterrissagem: descalço x calçado.

(N.T: O gráfico mostra o pico de força gerado pelo contato do calcanhar com o solo. O círculo em vermelho se encontra sobre o aumento súbito e acentuado da força de impacto quando o calcanhar atinge o solo, mostrado no gráfico – chamado de Impacto Transiente. A força de impacto descalço foi entre 1,63 e 1,78 X o peso corporal, enquanto que calçado foi entre 1,77 e 1,82 X o peso corporal).

 

Contato com o Antepé e Forças de Reação do Solo

Aterrissagem com o antepé: descalço x calçado.

(N.T: Nesse exemplo, vemos que não existe aquele aumento súbito e agudo da força quando o pé atinge o solo – Impacto Transiente – , a linha no gráfico é mais arredondada. O círculo em vermelho acompanha a colocação do pé no solo, fornecendo o tempo decorrido e o quanto da força, em múltiplos do peso corporal, está ocorrendo no momento. No gráfico da esquerda, no momento que a imagem foi capturada a leitura era de um impacto de 1,56 X o peso corporal, mas no momento da colocação do pé no chão o impacto foi de apenas 0,60 X o peso corporal, para a figura da direita, nesse mesmo momento, o impacto era de 0,42 X o peso corporal. Esse valor vai subindo a medida em que o pé avança sobre o solo e vai sendo distribuído por todo corpo).

 

Impacto com antepé: tênis de corrida convencional, com amortecedor.

(N.T: Usando tênis de corrida convencional, a força no momento da colocação do pé no solo foi de 0,47 X o peso corporal, 0,83 no momento que a imagem foi capturada).

 

Para entender estas diferenças, precisamos explorar a biomecânica da corrida, que pode ser dividida em 2 grandes componentes: A Cinemática da Corrida (a maneira que o corpo se move) e a Cinética da Corrida (a relação entre o movimento e as forças que os causam).

Para entender a importância das diferenças cinéticas (N.T: Diferenças nas forças que agem, causando movimento) entre os diferentes tipos de impacto do pé no solo, primeiro vamos considerar as diferenças chave na cinemática da corrida.

Note que existe um continuum de diferentes tipos de aterrissagem, desde aterrissar com calcanhar (Impacto com calcanhar), aterrissar simultaneamente com calcanhar e antepé (Impacto do meio do pé) e aterrissar na parte da frente do pé (Impacto com antepé).

Por motivos de simplicidade iremos analisar somente o impacto com calcanhar e antepé, sendo o impacto com o meio do pé sendo considerado intermediário entre os 2.

Diferenças biomecânicas entre os modos de atingir o solo. Cinemática da corrida - momento do impacto.

(N.T: A “carga” no arco plantar vem da contração excêntrica dos tecidos que tem de desacelerar a flexão plantar. O alongamento faz com que haja armazenamento de energia potencial elástica, que por sua vez será aproveitada na propulsão, gerando mais economia e eficiência).

Diferenças biomecânicas entre os modos de atingir o solo. Cinemática da corrida - impacto para pé plano.

Diferenças biomecânicas entre os modos de atingir o solo. Cinemática da corrida: pé plano - apoio médio.

Diferenças biomecânicas entre os modos de atingir o solo. Cinemática da corrida: apoio médio - fase final do apoio.

(N.T: Dedos flexionam após alcançar o máximo de extensão, se aproveitando do recuo elástico para gerar propulsão, o arco plantar funciona da mesma forma).

Diferenças biomecânicas entre os modos de atingir o solo. Cinética da corrida e forças de impacto.

Diferenças biomecânicas entre os modos de atingir o solo. Cinética da corrida e forças de impacto.

Ciclo da corrida.

 

Nota sobre Impacto com o Meio do Pé

Alguns corredores aterrissam simultaneamente na parte anterior do pé e no calcanhar. Essa forma representa um contínuo entre impacto com o calcanhar e com o antepé, dependendo de onde se encontra o centro de pressão no momento do impacto e quão rígidos são o tornozelo e o joelho nesse momento.

Alguns podem aterrissar de maneira suave sem muito impacto transiente, mas outros podem gerar impactos transientes da mesma forma como os que aterrissam com o calcanhar primeiro no solo. No entanto, estas forças são distribuídas sobre uma maior área, reduzindo o estresse sobre o pé.

Aterrissagem do pé - Mo Farah.

(N.T: Embora a imagem do britânico Mo Farah, bicampeão olímpico nos 5000 e 10000 m ilustre a colocação sobre o contato com o meio do pé, em virtude da posição do pé na imagem, na realidade ele usa o contato com a parte da frente do pé, embora seja perto do meio do pé).

 

Confira a próxima parte: Aterrissagem com o antepé e dicas de treino.

 

Avaliação e Reprogramação da Marcha e da Corrida

 

Bibliografia

Lieberman, D., Venkadesan, M., Werbel, W. A., Daoud, A. I., D’Andrea, S., Davis, I. S., Mang’Eni, R., Pitsiladis, Y. Foot strike patterns and collision forces in habitually barefoot versus shod runners. Nature, 2010.


Link do Artigo Original: Biomechanics of Foot Strikes & Applications to Running Barefoot or in Minimal Footwear.

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