Fascite Plantar - Instituto Fortius

Fascite Plantar

Marcus Lima

09 agosto 2019

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Fascite Plantar

Adaptação de um artigo escrito por David Tiberio, do Gray Institute. falando a respeito dos suspeitos da fascite plantar, uma busca pelas causas, ao invés de apenas atacar os sintomas.

Eles, do Gray Institue, têm uma visão muito particular e interessante a respeito do movimento humano e de como analisar função/disfunção.

O material original é composto de um artigo e 4 vídeos (links ao final desta adaptação) dissecando a maneira como eles veem a fascite plantar.

Ao final desta adaptação você pode conferir uma versão em pdf do artigo junto com um material extra.

Boa leitura.

 

Fascite Plantar: Prováveis Suspeitos

David Tiberio

Adaptação: Prof. Marcus Lima

 

A fascite plantar é uma lesão no tecido conectivo da sola do pé. Para avaliar a Biomecânica da Cadeia de Reação das CAUSAS da fascite plantar é necessário conhecer a função deste tecido, particularmente no que se refere à locomoção.

A fáscia plantar vai da parte medial inferior do calcâneo e se estende ao longo do pé até os dedos.

Dissecação da aponeurose plantar: LP (lateral part – parte lateral); CP (central part – parte central); MP (medial part – parte medial); L (length – comprimento); W (width – largura).

Ela suporta o arco do pé, especialmente logo antes do calcanhar levantar para a saída do hálux do solo (N.T: Saída do hálux do solo: Uma fase no ciclo da marcha que em inglês eles chamam de “Toe off”. Em português alguns livros chamam essa fase de “saída dos dedos”, ela ocorre aproximadamente aos 60% do ciclo da marcha e marca o início da fase de balanço.).

Quando o pé aterrissa no solo a articulação subtalar realiza o movimento triplanar de pronação (às vezes chamado de eversão em virtude do movimento do calcâneo no plano frontal).

A pronação da articulação subtalar cria mobilidade na articulação mediotársica. Esta mobilidade permite ao pé adaptar-se à superfície.

(N.T: Articulação Mediotársica: Também chamada de Articulação de Chopart. É a articulação entre o tálus e o navicular, o calcâneo e o cuboide e, talvez a mais importante, o cuboide e o navicular).

O arco cede sob o peso do corpo e os tecidos recebem uma carga excêntrica (N.T: O que em inglês, e particularmente no Gray Institute, do qual o autor faz parte, eles chamam de “load”). Esta função de se adaptar à carga excêntrica precisa se transformar muito rapidamente em propulsão.

(N.T: No Gray Institute, eles chamam isso de “explode” ou “explodir”. Na verdade eles têm um princípio ao qual chamam de “Load to Explode”, numa tradução literal “Carregar para Explodir”. Se referindo ao armazenamento de energia potencial elástica na fase excêntrica para a liberação dessa energia na fase concêntrica).

A articulação mediotársica é transformada de uma estrutura móvel para uma estável através da supinação da articulação subtalar (N.T: Articulação entre o tálus e a tíbia). Quando a subtalar está em uma posição supinada o pé está estável para a propulsão. A fáscia plantar contribui para esta estabilidade.

Se, em certas circunstâncias, a subtalar não supina, irá faltar estabilidade na articulação mediotársica. Sem o suporte ósseo, capsular e muscular para o pé a fáscia plantar será obrigada a suportar mais estresse.

O estiramento excessivo resultante pode produzir os sintomas clínicos conhecidos como fascite plantar. A consequência mais comum é uma ruptura parcial da fáscia plantar a partir de sua inserção no calcâneo.

Muitos, se não todos, clientes que experenciam fascite plantar têm o pé “destravado” em virtude da falha da articulação subtalar em adequadamente supinar antes da fase de propulsão da marcha.

Então, como detetives biomecânicos, começa a busca pelos prováveis suspeitos. A CAUSA pode estar em qualquer lugar no corpo devido à “verdade” do princípio da Cadeia de Reação.

 

Para este artigo os suspeitos serão divididos em 3 categorias:

→ Perna do mesmo lado;

→ Perna do lado oposto;

→ Esqueleto axial/core.

 

Serão discutidos alguns dos mais prováveis suspeitos. Problemas estruturais do pé não serão abordados.

 

Perna do Mesmo Lado

Na perna do mesmo lado os suspeitos são as disfunções que permitem excessiva pronação ou previnem a supinação da articulação subtalar (N.T: Perna do mesmo lado onde ocorre a fascite).

1. Falta de Dorsiflexão no Tornozelo: Movimento insuficiente do corpo sobre o pé no plano sagital leva a uma deficiência de carga excêntrica na panturrilha no plano sagital.

A falta de carga excêntrica faz com que a supinação “econcêntrica” da articulação subtalar não seja efetiva.

(N.T: Econcêntrica é um termo usado pelo pessoal do Gray Institute, uma contração que ao mesmo tempo é concêntrica em um plano e excêntrica em outro plano de movimento. Ou concêntrica em uma articulação e excêntrica em outra. EX: Isquiotibiais, que estão em uma contração excêntrica no quadril e concêntrica no joelho. Como a velocista na imagem abaixo. Também pode haver o caso de algumas fibras em um tipo de contração e outras fibras em outro, como muitas vezes acontece com os oblíquos interno e externo do abdome).

 

2.Rigidez do Grupo da Panturrilha: À medida que o corpo se move sobre o pé ocorre dorsiflexão do tornozelo e da articulação mediotársica.

Normalmente a supinação reduz a dorsiflexão na mediotársica, mas se o tornozelo não tem dorsiflexão suficiente, então a subtalar pode permanecer pronada a fim de manter a dorsiflexão mediotársica disponível para o corpo.

 

3.Fraqueza dos Músculos Posterolaterais do Quadril: Quando a articulação subtalar entra em pronação, a extremidade inferior inteira participa em uma Cadeia de Reação triplanar que inclui adução e rotação interna do quadril.


[N.T: Na imagem acima podemos ver o posicionamento do quadril nos 3 planos quando o pé toca o solo durante a corrida.

– Plano sagital: Quadril em flexão (essa flexão precisa ser desacelerada).

– Plano Frontal: Quadril em adução (essa adução precisa ser desacelerada).

– Plano Transverso: Quadril em rotação interna (A seta vermelha indica a direção da rotação do tronco e da pelve. A seta amarela se refere à rotação interna do fêmur que ocorre quando o pé toca o solo).

São os músculos posterolaterais, especialmente o glúteo máximo, que desaceleram este movimento triplanar do quadril quando o pé toca o solo].


Se os movimentos de aterrissagem da cadeia de reação não são desacelerados, a articulação subtalar pode sofrer pronação excessiva, fazendo com que seja difícil de obter supinação suficiente para a propulsão.

(N.T: O autor frisa, nos vídeos relacionados ao artigo, que se está havendo pronação excessiva na aterrissagem a maior probabilidade é de que a culpa seja dos músculos posterolaterais do quadril do mesmo lado afetado).

 

Perna do Lado Oposto

Na perna do lado oposto os suspeitos são condições que previnem a carga (N.T: Load) apropriada fornecida pela perna de trás, ou que limitam a propulsão daquela perna.

A propulsão efetiva ocorre quando a pelve roda em direção à perna da frente. A rotação pélvica faz com que a perna da frente faça rotação externa, assistindo à supinação da articulação subtalar através de um drive (N.T: No sentido de quem conduz, leva ao movimento) de cima para baixo.

1.Falta de Dorsiflexão do Tornozelo ou Rigidez do Grupo da Panturrilha: A dorsiflexão insuficiente limita a carga excêntrica (N.T: Load) dos músculos da panturrilha e inibe a extensão do quadril. Quando a carga excêntrica antes do calcanhar sair do solo é insuficiente, a propulsão será ineficaz.

 

2.Extensão Limitada do Quadril: A maior parte da potência para a propulsão vem dos músculos flexores do quadril. Esses músculos receberão uma carga excêntrica através do movimento de extensão (e rotação interna) do quadril. Sem uma boa carga excêntrica (N.T: Load) do quadril, a propulsão será menor do que a ideal e a rotação da pelve em direção à perna de aterrissagem será reduzida (N.T: Essa falta de extensão pode ser devido à rigidez dos flexores do quadril ou da cápsula articular, segundo o autor do artigo explica em vídeo – Link no final).

 

3.Dor ou Limitação na Extensão do Hálux: À medida que o calcanhar se eleva em resposta aos movimentos articulares e contrações musculares da propulsão, o hálux entra em extensão (dorsiflexão do hálux), Se essa extensão é limitada, a potência da propulsão será “amortecida” e a rotação da pelve reduzida.


[N.T: Esses 3 itens descritos acima se referem à eficiência com que se consegue fazer a propulsão da perna oposta àquela que sofre da fascite plantar. A figura acima representa o somatório dos 3: Dorsiflexão do hálux, Dorsiflexão do tornozelo, Extensão do quadril.

Se a perna oposta tem um balanço eficiente (esquerda na figura) ela fará com que a pelve rode eficientemente em direção à perna da frente (direita na figura) causando uma reação em cadeia que se dá da seguinte forma: Rotação da pelve para direita – rotação externa do fêmur e tíbia direitos – supinação da subtalar.

Esses eventos fazem com que a propulsão da perna oposta fique facilitada, não sobrecarregando a fáscia plantar].


Core / Esqueleto Axial

Na caminhada, e especialmente na corrida, as capacidades funcionais dos músculos posterolaterais do quadril da perna de aterrissagem dependem de uma pelve móvel, mas ao mesmo tempo estável.

Se os músculos do core (da frente e de trás) não são alongados e carregados excentricamente, a pelve não terá mobilidade/estabilidade, resultando em “fraqueza” funcional dos músculos do quadril do mesmo lado (N.T: Do mesmo lado lesionado).

1.Perda do Movimento Articular de Rotação Torácica: Movimento insuficiente da torácica, em qualquer um dos 3 planos, pode resultar em uma carga excêntrica ineficiente para os músculos do core. Sem isso a mobilidade/estabilidade pélvica é quase impossível.

 

2.Fraqueza dos Músculos Abdominais: Se o movimento da coluna torácica está disponível ele precisa ser desacelerado pelos abdominais. Então a energia da desaceleração (N.T: Energia potencial elástica) precisa ser transformada em um movimento concêntrico que produz força.

A falha dos abdominais em desacelerar e/ou acelerar o tronco e a pelve irá afetar negativamente a potência do quadril.

 

3.Fadiga / Rigidez do Trapézio Superior: Na medida em que o tronco se move nos 3 planos de movimento, criando carga excêntrica e contração concêntrica dos músculos do core (N.T: Na linguagem do Gray Institute: Load to Explode) a coluna cervical está na realidade experenciando movimento articular.

Com a cabeça mirando à frente, o movimento do tronco cria movimento articular na coluna cervical. Se os músculos trapézios estão “rígidos” com fadiga, a cabeça irá ter de rodar de um lado para o outro ou a cabeça irá permanecer fixa ao inibir o movimento na coluna torácica (muito mais provável).

(N.T: Na imagem abaixo a torácica está rodada para direita e com uma inclinação para direita, para manter a cabeça nivelada, a cervical estará rodada para esquerda e inclinada para esquerda. Como nossa coluna é segmentada e cada articulação entre as vértebras contribui com um pouco de movimento em benefício do todo, nem todas as vértebras terão a mesma amplitude).

Um exame efetivo e eficiente de todos os prováveis suspeitos, enquanto integrados com o resto do corpo é a força do 3DMAPS (N.T: 3D Movement Analysis and Performance System. A tradução livre seria: “Sistema de Análise e Desempenho Tridimensional do Movimento”. O 3DMAPS é a ferramenta avaliativa criada por Gary Gray e o autor do texto, David Tiberio).

Sem um sistema de treinamento/tratamento, determinar a CAUSA da fascite plantar permanece um grande desafio.

 


Se você quiser acessar a versão em PDF deste artigo mais 4 materiais extras (Adaptação em PDF do conteúdos dos 3 vídeos do David Tiberio, mais um panorama geral do que dizem as evidências científicas a respeito da fascite plantar) confira no link:

Artigo em PDF + material extra.

 

Artigo Original: Probable Suspects – Plantar Fasciitis

Vídeo: Plantar Fasciitis – Part 1

Vídeo: Probable Suspects – Same Side Leg

Vídeo: Probable Suspects – Opposite Side Leg

Vídeo: Probable Suspects – Trunk/Core

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