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Articulações do Tornozelo e Subtalar

Por Marcus Lima em 05 de janeiro de 2021

Artigo que trata das articulações do tornozelo e subtalar, tomando por base um artigo publicado em um periódico com foco na cinemática dessas áreas.

Obs.: As figuras, como de costume, não estavam no artigo original, tampouco as tradicionais notas do tradutor (N.T). As notas mais extensas foram colocadas entres linhas contínuas.

 

Articulações do Tornozelo e Subtalar

Dave Tiberio

 

Articulações do tornozelo e subtalar - artigo publicado em periódico.

Esse estudo usou fluoroscopia de dupla velocidade, em combinação com uma série de outras tecnologias avançadas de medidas, para documentar os movimentos nas articulações talocrural (tornozelo em si) e subtalar durante a caminhada em uma esteira. Eles também estudaram a elevação dos calcanhares em pé.

(N.T: A fluoroscopia é uma espécie de exame de raio-x em tempo real, sem a necessidade de revelar imagens como em um raio-x convencional. As imagens são em alta resolução. Abaixo, uma imagem de uma aparelhagem do tipo, retirada do artigo: Accuracy and Feasibility of High-Speed Dual Fluoroscopy and Model-based Tracking to Measure In-vivo Ankle Arthrokinematics. Wang et al. 2015. A seguir transcrevo a legenda da figura: “Sistema de fluoroscopia duplo customizado posicionado ao redor de uma esteira dupla para captar a imagem das articulações subtalar e talocrural. O espécime foi colocado no campo de visão combinado dos 2 fluoroscópios. As linhas tracejadas representam a projeção dos feixes de raio-x. E = emissor; II = intensificador de imagem”).

Equipamento de fluoroscopia dupla de alta velocidade.

(N.T: a elevação dos calcanhares em pé é aquele tradicional exercício usado nas academias de musculação para treinar as panturrilhas).

Exercício de treinamento das panturrilhas: Elevação bilateral dos calcanhares.

A intenção foi medir quanto movimento articular de rotação e translação ocorria a cada articulação em cada plano.

10 sujeitos (5 homens e 5 mulheres) com uma média de idade de 30 anos participaram no estudo. Os autores queriam estabelecer parâmetros de comparação para pacientes com osteoartrose no pé.

As velocidades de caminhada na esteira eram de 0,5 e 1 m/s (N.T: 1,8 e 3,6 km/h, respectivamente). Até mesmo a máxima velocidade usada é abaixo da velocidade normal de caminhada em humanos, mas ela foi escolhida para se equiparar à marcha de pacientes que podem ter de se deslocar em uma velocidade muito mais lenta do que o normal.

Em geral os resultados confirmaram os resultados adquiridos em estudos anatômicos clássicos em cadáveres, assim como investigações mais recentes em sujeitos vivos. O tornozelo (talocrural) era uma articulação triplanar que se movia primariamente no plano sagital e a articulação subtalar fornecia primariamente movimento no plano frontal e transverso.

O estudo forneceu informações de que a articulação talocrural fornecia mais movimento nos planos frontal e transverso do que se pensava anteriormente. De modo similar, a articulação subtalar parece contribuir mais no plano sagital, especialmente durante a fase de propulsão da marcha.

Articulações do Tornozelo e Subtalar - Complexo pé/tornozelo vista frontal e posterior.

(N.T: As imagens acima mostram o plano geral do complexo pé/tornozelo visto sob 2 diferentes perspectivas. As imagens abaixo separam as 2 articulações dentro do complexo especificamente citadas: Talocrural e Subtalar. Em algumas fontes, o osso navicular aparece como parte da articulação subtalar, mas a maioria considera o encontro entre o tálus e o navicular como uma articulação separada, a talonavicular).

Articulações do tornozelo e subtalar vistas em detalhe.

 

Os autores discutiram a substancial variabilidade entre os sujeitos quando comparados com as médias. De um ponto de vista clínico, uma razão para a variabilidade é provavelmente a diferente estrutura do pé dos sujeitos.

Estudos anatômicos anteriores mostraram grande variabilidade nos eixos de movimento articular destas articulações. Isso produziria diferentes graus de movimento em cada um dos planos. Também, o grande benefício de estudar humanos intactos adiciona complexidade para a interpretação (N.T: Ao invés de estudar cadáveres).

As articulações e a força muscular acima do pé estão contribuindo para a tarefa de caminhar e irão influenciar como o pé responde a essa tarefa.

Esse estudo, em conjunto com outros, confirma a mágica do maquinário humano: Consistência combinada com variabilidade.

 

Mas o que especificamente nesse estudo importa para a função?

Primeiro, confirma as pesquisas prévias em cadáveres e algumas subsequentes que demonstram a capacidade do retropé (talocrural e subtalar) de agir como uma articulação 3D.

As articulações agem de forma independente, embora o movimento articular de uma possa influenciar a outra. Nossos clientes/pacientes/etc. frequentemente necessitam de dorsiflexão na talocrural quando a subtalar está evertida ou invertida. Durante a fase propulsiva da marcha, é requerido dorsiflexão na talocrural com a articulação subtalar invertida/evertida.

(N.T: A figura abaixo mostra a dorsiflexão, vista de diferentes ângulos, com o pé relativamente neutro, pronado e supinado. A pronação está em conjunto com a eversão subtalar – linhas amarelas traçadas no calcâneo – enquanto que a supinação com a inversão).

Dorsiflexão com diferentes posições articulares do complexo pé/subtalar.

Podemos avaliar as 2 combinações usando um lunge híbrido, dentro de nosso sistema de performance (N.T: O autor se refere à metodologia utilizada por ele dentro do Gray Institute, instituição da qual faz parte).

Ao modificar a direção da Cadeia Anterior – que se utiliza de um lunge anterior – pisando mais para direita ou esquerda anteriormente, a articulação subtalar será direcionada em eversão ou inversão em conjunto com a dorsiflexão. Então parte do programa de intervenção para melhorar a dorsiflexão pode usar essa estratégia do emprego da perna oposta (N.T: Perna oposta daquela que se quer melhorar a dorsiflexão do tornozelo) como driver.


N.T: Exemplo → Trabalhar a dorsiflexão do tornozelo esquerdo com a subtalar em eversão e inversão.

Trabalhar as articulações do tornozelo e subtalar usando como base o lunge citado, o anterior – que é simplesmente uma passada à frente e retornar ao ponto de partida.

Lunge anteriorO que o autor chama de lunge híbrido são os lunges diagonais, para o propósito do tema do artigo usaremos o lunge diagonal aberto para direita, usando a perna direita como driver (ou condutor do movimento, a perna que dá a passada).

Lunge diagonal anterior direito.Embora não possamos visualizar, esse movimento faz com que a perna de apoio – a esquerda – tenha a talocrural (tornozelo) em dorsiflexão e a subtalar em eversão.

Para se fazer o inverso, colocar o tornozelo (talocrural) em dorsiflexão e a subtalar em inversão, usamos um lunge diagonal anterior cruzado, com a perna direita novamente como driver.

Lunge diagonal anterior cruzado direito.

OBS: Se quiser saber tudo sobre o raciocínio por trás de uma infinidade de utilizações dos lunges, assim como muitos outros conceitos do treinamento tridimensional, breve estaremos lançando o Ebook: “Pensando em Três Dimensões”.


Uma segunda e menos óbvia implicação do estudo se relaciona ao fato de como os movimentos da articulação subtalar nos planos frontal e transverso causam impacto na função.

A articulação subtalar age como um conversor de torque.

Ela converte o movimento do pé no plano frontal em movimento da perna no plano transverso.


N.T: Quando o calcâneo everte, como na aterrissagem da marcha/corrida, o tálus desce e roda internamente, fazendo com que a tíbia e o fêmur façam uma rotação interna no plano transverso → “Reação de baixo para cima”.

As imagens abaixo mostram o movimento do tálus e a consequente rotação da tíbia, que, por sua vez, transmite a rotação cadeia acima, fazendo com que o fêmur rode internamente.

Articulações do Tornozelo e Subtalar: Tálus como conversor de torque - vista medial.

Abaixo a vista posterior.

Articulações do Tornozelo e Subtalar: Tálus como conversor de torque - vista posterior.


A biomecânica também age de maneira reversa, o movimento da perna no plano transverso é convertido em movimento do pé no plano frontal durante atividades com a descarga de peso corporal.

Se a eversão da articulação subtalar é restrita, nossos programas de treinamento podem abordar isso com 2 estratégias diferentes.

  • Se, por exemplo, existe uma restrição na eversão da subtalar esquerda:

Podemos usar um lunge lateral cruzado com a perna esquerda, criando uma força no momento da aterrissagem do pé no solo (com a borda lateral), que faz com que haja uma eversão da articulação subtalar, através do uso da força de reação do solo e da gravidade.

(N.T: Podemos denominar essa estratégia de “De baixo para cima” – Existe a eversão no momento que o pé toca o solo e suas consequências biomecânicas são transmitidas cadeia acima – Rotação interna da tíbia – rotação interna do fêmur).

Lunge lateral cruzado.

Outra estratégia é fazer com que o indivíduo desempenhe um lunge rotacional aberto com o pé direito. Isso faz com que a perna de apoio, a esquerda, tenha o seu fêmur em rotação interna. A tíbia também entrará em rotação interna, direcionando o tálus igualmente em rotação interna. A articulação subtalar converte esse movimento no plano transverso em uma eversão no plano frontal do calcâneo.

(N.T: Podemos denominar essa estratégia de “De cima para baixo”).

Lunge rotacional - aberto.

Ambas estratégias irão criar a eversão. Ambas são funcionais, mas uma pode se adaptar melhor do que a outra, dependendo da situação.

 


Artigo original: Evidence that Matters for Function: Ankle and Subtalar Joints

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