Força Primeiro?

Ótima reflexão do meu amigo Pedro Simão a respeito de um assunto que confunde muitos profissionais e acaba sendo uma evolução no trabalho de treinar pessoas. A reflexão diz respeito a velha crença de que tudo que precisamos fazer é fazer um “reforço muscular” em determinados músculos e alongar músculos encurtados (embora ele não fale especificamente nesse tópico, cabe a menção por ter relação com o tema). O que está em jogo é o modelo vigente de treinamento que aplicamos em nossos clientes, e também o modelo atual do que se conhece como “Treinamento Funcional”, como o Pedro fala no artigo existem MUITOS “Treinamentos Funcionais”. A reflexão é sempre válida e ainda mais quando nos é proposta uma alternativa.

Leiam e tirem suas próprias conclusões.

Boa leitura aos amigos.

 

Quer saber mais? Assista o workshop: Integração do movimento humano.

 

Força Primeiro?

Pedro Starling Simão 

 

Não há dúvidas que a Força Muscular é fundamental para a locomoção humana, a manipulação de objetos e transporte de cargas de um ponto a outro, para a otimização da performance nas atividades diárias e esportivas e na diminuição do desgaste estrutural natural que o tempo nos proporciona, entre outros benefícios fisiológicos já conhecidos. O próprio Colégio Americano de Medicina do Esporte – ACSM (American College of Sports Medicine), instituição que nas décadas de 60, 70 e 80 preconizava a atividade aeróbica como sinônimo de saúde, há um bom tempo se rendeu aos benefícios que o treinamento da força muscular promove no nosso organismo. Assim como o famoso Kenneth Cooper, “pai dos aeróbicos”, que dá nome a seu instituto, já incorporou a Força como sendo nuclear ao seu negócio.

Então como você responderia à pergunta inicial?

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Há alguns anos no Brasil a indústria do Fitness tem expandido regularmente tanto em termos de mercado consumidor quanto em termos de ofertas de produtos e serviços para todas as faixas etárias e classes sociais. Obviamente copiamos as tendências e novidades de outros mercados como o dos EUA e Europa, principalmente, por serem pioneiros e mais bem consolidados. Quando se trata de Treinamento de Força então, não é diferente. A Musculação – modalidade de treinamento de força praticada nas academias- foi o carro chefe dos anos 80, 90 e 00 no Brasil e contribuiu para a propagação de uma cultura do treinamento com pesos e máquinas e também de modelos estéticos da sociedade contemporânea. Recentemente assistimos à invasão do Pilates primeiro, e do Treinamento Funcional em seguida, como modalidades alternativas à Musculação e que ganharam muito mercado. Uma diferença básica em relação à Musculação praticada nas academias é a utilização, por estas “modalidades”, do movimento fora das máquinas e de acessórios como meio de treinamento da força muscular, da mobilidade e estabilidade articular. Conceitos novos e que foram bem aceitos pela comunidade ativa e por aquela que busca se tornar ativa, ou que tem patologias dos sistemas musculoesquelético, metabólico e mental.

Então como você responderia à pergunta inicial?

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Atualmente existe um debate sem fim acerca do que seria Treinamento Funcional. O que o caracterizaria e quais seriam seus limites. O que parece consenso é que existem vários “Treinamentos Funcionais”. Ou seja, a musculação é funcional, o pilates, o yoga, o treinamento funcional, etc. A partir disso um setor do mercado fitness tem preferido utilizar o termo Treinamento Físico Funcional ou Integrado. Uma menção a uma visão integrada do movimento humano onde as partes ou grupos musculares e os segmentos corporais ou conjuntos de articulações são concebidas e treinadas como uma unidade relacionada, ou seja, diferentemente da visão reducionista e segmentada da proposta de treinar músculos isolados. Esta corrente foi além e modificou o entendimento acerca do treinamento abdominal ou do “Core” como se batizou. A partir disso, vários métodos surgiram fazendo menção a este termo e têm difundido suas técnicas e conceitos através de cursos, seminários e workshops para os profissionais que trabalham com o movimento humano tanto no contexto da reabilitação quanto no da performance. Neste sentido treinar o “Core”, ou melhor, a força e resistência do mesmo se tornou prioridade de todo programa de treinamento. O treino de membros inferiores e superiores precisa ser integrado ao “core” sob pena de perder em eficiência e segurança no movimento. As famosas variações das “pranchas e pontes abdominais” e de exercícios que utilizam ferramentas como o Kettlebel, a Barra Olímpica,  o Clubbel, a Medball, Bola Suíça, máquinas multifuncionais, sacolas de peso e outras ilustram isso…Ademais, métodos e modalidades de alta “intensidade”, que na verdade impactam mais o sistema metabólico do que o neuromuscular, explodiram diante da promessa de vitalidade, saúde e boa forma, só que para uma parcela ínfima da sociedade que ainda “pode se dar ao luxo” de se submeter a tal.

Então como você responderia à pergunta inicial?

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O movimento humano está mais valorizado que nunca, inclusive pela área médica, para quem “exercício é remédio” e o termo “Core” e “Estabilização Funcional” vem ganhando força, mesmo sem saberem ao certo do que estão falando. O sedentarismo cresce, juntamente com a necessidade de se livrar dele.  É consenso que “alongar e fortalecer” já não é o bastante, na verdade nunca foi, e não tem solucionado os inúmeros problemas musculoesqueléticos e posturais que pipocam na sociedade moderna e que influenciam diretamente na taxa de sedentarismo. Não é mais aceitável que atletas profissionais continuem se lesionando com alta frequência e que continuem colocando a culpa na falta de força muscular, às vezes de um musculozinho específico ou na diferença de força entre grupos musculares “opostos” detectada em avaliações pouco funcionais e que a estratégia corretiva seja melhorar o desempenho “isolado” destes. Este modelo não está se mostrando sustentável. Parece que nos tornamos refém da Força Muscular! Ou da falta dela…

Então como você responderia à pergunta inicial?

 

Um grupo de profissionais de diversas partes do mundo, pesquisadores da neurociência e do movimento humano já tem chamado a atenção há algum tempo que Estabilidade é diferente de Força! (Esse é um artigo do Gray Cook que aborda estes tópicos: Controle Motor) E, portanto, que a estratégia para melhorar uma valência é diferente da outra. Mas, que melhorando a Estabilidade melhora-se a resposta de Força. O contrário nem sempre acontece! A questão central é que devemos ir além do nosso olhar para os músculos e articulações e começarmos a entender como o Sistema Nervoso Central, o “general”, controla a postura e o movimento. E começar a enxergar a especificidade do sistema miofascial profundo e o superficial e suas características e funções (tabela abaixo). E a partir disso elaborar estratégias de intervenção – meios de reabilitação e treinamento – mais específicas e eficazes. E enxergar também que trabalhar nas entradas sensoriais de informações influenciam diretamente a saída ou postura e movimento, consequentemente na resposta de força (ver  o artigo: “Quanto melhor a entrada melhor a saída”). Por fim necessitamos de um sistema de trabalho baseado em:

– Avaliação
– Correção
– Integração do Movimento

Nessa proposta incorporamos os conceitos dos Drives Neurais, Captores Posturais, da Neurofisiologia Muscular e da Anatomia Funcional e Cinesiologia/Biomecânica, numa lógica de regressão/progressão dos meios de reabilitação e treinamento.

Então, Força Primeiro?

TabelaII

 

 

Sobre o Autor:

– Prof. Educação Física, proprietário do Stúdio Funciona! by Pedro Simão em Belo Horizonte, MG

Referências:

– Gibbons, SGT and Comerford, MJ. Strenght versus Stability, Part 1. Concepts and Terms. Orthopaedic Division Review, 2001.

 

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